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Amar a si


Nas últimas décadas proliferaram as máximas de autovalorização

·        Amar primeiro a si, para depois amar os outros.

·        Que é impossível amar aos outros se primeiro não amarmos a nós mesmos.

·        Que os antigos priorizavam o outro na relação, e por isto, eram infelizes.

·        Em todo o nosso futuro, a única pessoa que certamente sempre estará presente na sua vida é você mesmo. E isto é motivo suficiente para você priorizar a si mesmo.

 

Reflexão 01. Essas máximas são falácias do tipo preto e branco.

A máxima nos faz pensar que existem apenas duas possibilidades: 1) amar, valorizar e priorizar a si, ou 2) amar, valorizar e priorizar ao outro, desvalorizando a si mesmo. É só começar uma palestra afirmando que a máxima é falsa ou falaciosa que alguém pede a palavra e afirma: então devemos priorizar os outros, satisfazer os outros ou fazer a vontade dos outros? Ora, não há apenas estas duas possibilidades. Há um erro de lógica, um raciocínio vicioso que nos induz ao erro. As possibilidades de valoração não são apenas duas: a si e ao outro, há toda uma gama de variação entre os dois polos, inclusive costuma haver uma terceira entidade. Podemos, por exemplo, valorizar a relação, o futuro, a profissão e muitas outras coisas que estão em jogo além de eu e os outros.

Conceito de Terceira Entidade. Se você ainda não estudou este conceito conosco, por favor, veja a reflexão aqui: http://www.ibted.org.br/Html/textos7c/3E.html.

E, mesmo que só houvessem dois polos para amar, esta regra deveria ser flexível, caso a caso, não uma atitude polarizada, engessada. Em qualquer relação é comum o eventual desnível de poder e de necessidade. As atitudes precisam se adaptar, nunca se manterem rígidas. Há momentos em que devemos nos priorizar e situações em que nos sacrificamos, seja pelo outro, seja pela relação, seja pela sociedade. A quem interessa o engessamento?

Nebuloso. Fortalecendo os egoístas, os egóicos e os narcisistas.

Se você ainda não percebeu que a crença em amar a si primeiro lugar estimula doenças e doentes sociais, que pode esconder egoísmo, nazismo, egocentrismo, abusos de forma geral, vamos a algumas questões.

Considere que seja verdadeira a seguinte natureza humana: não conseguimos ver nosso lado supostamente negativo. Burrice, egoísmo, vaidade e todas as demais atribuições negativas não são devidamente percebidas pelos que sofrem destes atributos. Nenhum de nós vê seu lado negativo com claridade, mas podemos percebê-los nos outros. E quanto mais essas características se fazem presente em nós, mais veementemente a negamos.

Nebuloso. Sabemos que todos temos uma parcela de egoísmo, uns mais, outros menos. Se abraçamos a ideia que devemos nos amar em primeiro lugar, quais as chances de reduzirmos, em nós, nosso egoísmo? Aparentemente esta máxima colabora no fortalecimento. Tem certeza que devemos persistir nesse pensamento em vez de procurarmos o equilíbrio entre nos amar e aos outros?

Nebuloso. Sabemos que há ladrões por aí. Todo ladrão crê que tem o direito de usurpar algo dos outros. Alguns acham que podem até tirar a vida de suas vítimas para realizar seu intento, já que se amam mais que aos outros. Mais uma vez: a máxima acima direciona para a desumanidade. E você ainda a defende?

Nebuloso. Ao ensinarmos aos nossos filhos, netos e alunos que devem priorizar a si, estamos colaborando com a formação de um povo cada vez mais egoísta, quiçá nazista. Sim, para ser nazista você precisa achar que é normal se valorizar mais que aos outros. Já refletiu sobre as condições filosóficas do nazismo?

Se pessoas só valorizam as suas próprias coisas, consigo divisar vários outros agraves. Como a ideologia. Se desprezamos a dos outros, os atritos e disputas sociais aumentam, o que sabemos ser um dos interesses na atualidade, visando, é claro, o controle social.

Conclusão. Máximas e ditos populares da atualidade, por ignorarem a possibilidade da Terceira Entidade, nos deixam a ilusão que temos apenas duas opções: a de valorizarmos a nós mesmos e aos outros. O que parece ser um dos mecanismos de adoecimento psicológico e controle social. Nebuloso.

Uma boa quantidade de progenitores, principalmente mães, se sacrificaram mais que o necessário para criar os filhos, e simplesmente foram abandonadas por eles. Deveriam ter priorizado apenas a si?

O quadro piora se considerarmos os custos e investimentos. Muitos progenitores costumam dispensar mais do que poderiam à formação e criação de seus filhos. Alguns chegam à terceira idade sem condições de se sustentar decentemente. Muito filhos ajudam, outros, não. Os que amam a si em primeiro lugar, de lado costumam ficar?

Há pessoas que fazem de tudo para garantir seu patrimônio. Outros o sacrificam e ainda seu tempo disponível, seus valores, sua vida em prol da família ou da comunidade. Tem certeza que devemos optar por um dos polos e nunca mudar de lado ou equilibrar as forças?

Que experiência você considera menos meritosa: doar-se e não ser correspondido ou nunca se sacrificar pelo outro?

Há uma crença para justificar o amar a si em primeiro lugar: antigamente as mulheres amavam seus maridos mais que a si mesmas e, por isto, sofriam e eram exploradas. Mais aqui.

 

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