Mecanismos Terapêuticos
Tipos de Medicina

Por Carlos Roberto Serrão Haddad –haddad.ibted@gmail.com

Baseado na obra Como as Medicinas Naturais Funcionam

Os Tipos de Medicina

História crítica

A História pode dividir a Medicina em cinco fases conforme suas fundamentações quanto à origem das doenças: primitiva ou ritualística, energética, higiênica, medicamentosa e multidisciplinar.

 

Medicina Ritualística ou Primitiva

As primeiras medicinas eram basicamente ritualísticas. Caracterizavam-se por atribuir a alguma entidade maligna (um agressor), o motivo do Mal e promoviam um ritual exorcista para promover a cura.

Febre seria efeito da possessão do demônio do Fogo assim como muco, agitação e contração seriam características dos demônios da Água, do Vento e da Terra. Nesta direção e conforme observações empíricas das vontades dos deuses, promoviam rituais.

No combate ao demônio do Fogo e no intuito de reduzir a febre, não utilizavam as fogueiras, mas banhos ou água fresca. Por motivos óbvios: a água combateria o demônio e o fogo, não.

Na China antiga, na Grécia antiga e mesmo muito depois, nos índios brasileiros quando da descoberta do Brasil, os males como febre, temporais, falta de caça, morte de membros da aldeia e plantas venenosas eram compreendidas da mesma forma: associados a divindades e suas vontades.

Cabe ainda registrar que em momento algum a medicina ritualística deixou de ser praticada. Hoje proliferam rituais, orações, mandingas, credos e cirurgias espirituais (entidades que curam) na promoção da saúde.

 

Como os Elementares da Natureza combatem doenças

Em certa medicina primitiva mediterânea se desenvolveu uma teoria muito famosa ainda hoje em dia sobre o fato de elementos naturais combaterem sintomas. Matérias naturais como a água e o fogo combatem demônios, logo, não pode só haver um produto físico, mas também uma entidade nela: os elementares da Natureza. Na água, ondinos, no fogo, salamandras, na terra, gnomos e no vento, silfos. Entidades comuns em mitologias, filmes de fantasia e jogos infantis, que normalmente lutam contra o mal.

Lareiras, devido às salamandras, combateriam o demônio da Água (mucosidades) assim como banhos, por causa dos ondinos, combatem o demônio do Fogo (a febre). Ginástica e passeios, que levam ao movimento, por causa dos silfos, combatem contratura muscular da mesma forma que prisão, por causa dos gnomos, deixa as mulheres agitadas (na TPM) mais calmas. Procure colocar em isolamento, trancada mesmo, uma mulher na TPM, por dois dias, sem se alimentar. Não ficará menos agressiva com o marido? Isto e alucinações com essas entidades são as provas de que os elementares da natureza existem.

 

Medicinas Energéticas

O segundo grupo de medicinas registrado pela História são as medicinas energéticas: atribuem o mal a alguma energia negativa. Os males comentados não seriam mais possessões, mas energias negativas.

Esta medicina foi inaugurada por Hipócrates.

Hipócrates viveu no século IV a.C, na época em que apareceu a sangria como técnica de cura e ocorriam guerras entre os gregos.

A sangria é muito delicada, se mal feita, pode levar o paciente à morte. Na sangria é importante saber localizar o ponto, o tipo de escara a fazer, como promovê-la, retirar o sangue, como exudar o local e cauterizá-lo. Facilmente pode levar à infecção e à morte.

As guerras deixam feridos. É necessário tratar dessas feridas: algumas infeccionam, demandando amputação. As exigências técnicas da sangria (acupuntura, como se traduz em textos atualmente) e da amputação fizeram aparecer técnicos nessas artes. Entre os primeiros, Hipócrates foi nomeado o Pai da Medicina.

 

Por que Hipócrates é o pai da Medicina?

Registra-se a acupuntura muito antes do tempo de Hipócrates: na idade do Bronze Clássica (1523 a 1027 a.C.). Então por que Hipócrates é chamado o pai da medicina, se a sangria está atribuída a esta homenagem e não lhe é contemporânea?

Porque ele não atribuía mais o mal a entidades malignas, mas à energia. Em vez de promover rituais, mesmo que com a prática de sangria, ele descreveu as técnicas em si. Não utilizava só sangrias: registrou a importância da alimentação para a saúde e tratava vários males com sumo de repolho. Foi o primeiro dos homens a inaugurar a era em que os homens promoviam a cura e não mais as divindades ou os elementares da natureza, motivo de ser escolhido o pai da Medicina.

 

A sangria cura doenças?

A sangria possui seus mecanismos de ação: ao perdermos um pouco de sangue, nosso organismo reage imediatamente produzindo componentes sanguíneos. Como a série branca, que atua sobre a imunidade, e os hormônios, que tratam cólicas menstruais e vários outros males. O aumento metabólico atua sobre quase todas os sintomas domésticos: dor de barriga, cólicas e dores em geral, hérnias de disco, tendinites, a maioria dos quadros febris, dores de cabeça, problemas digestivos e geniturinários. A agressão da sangria ou da acupuntura ao tecido provoca reações de defesa, que possuem características terapêuticas em várias patologias.

 

A doença como energia

Os povos antigos acreditavam na existência de miasmas (Energia Negativa). Até o desenvolvimento do microscópio, na primeira década do século XX, eles não conheciam um vírus nem os hormônios. Sabiam que, provocando sangrias, a agitação, a febre e a contratura, antes demônios, se aliviam. Por que eles associavam a doença à energia?

De certo apenas que a retirada de sangue alivia o sintoma-doença, mas este não pode ser visto no sangue retirado. Como explicar esse fenômeno? Apesar de observarem atentamente o sangue que, ao sair, promovia a cura, não conseguiam achar nele a doença ou nada de anormal, logo, o mal era invisível: uma energia, certamente. Por causa disto, passaram a associar essas três coisas: sangue, energia e doenças. Esses males, onde estariam? Saíram com o sangue, mas não podem ser vistos? Então são invisíveis. Como a energia. Mas negativos porque promovem patologias.

 

A Medicina de Três elementos

A medicina energética mais antiga que temos notícias surgiu ao norte da Índia, antes mesmo de Hipócrates: a Ayurvédica. Compreendia tudo no mundo a partir de três elementos-energia (tridoshas): Kapa, Pita e Vata.

Caso houvesse aumento de temperatura, a pessoa estaria com excesso de Pita, literalmente fogo. Tudo que aumenta a temperatura como o Sol, gengibre e alho, possui a energia Pita. Tudo que a diminui como água e frutas suculentas, combate Pita.

Movimento estava associado a Vata, energia de Vayú, o Vento. Chocolate, café e qualquer coisa com cafeína ou que provoque agitação possuem Vata. O que diminui, combate. Leite e seus derivados, proteínas de forma geral, calcificam. Logo, combatem Vata e aumentam Kapa.

Kapa refere-se à matéria. Ciatalgia contrai os músculos lombares, logo, é patologia de excesso de Kapa; se alguém engordou, perdeu essa energia porque os gordos são menos contraídos (mais flácidos) que os mais saudáveis.

Como todas as outras medicinas e teorias, é aplicável em sabores, comportamento, ervas, alimentos, ambientes e elementos da natureza.

Por exemplo, o biótipo. Se a pessoa é agitada, é da personalidade Vata. É anestesiada quanto ao efeito da cafeína, tem o corpo com mais ácido lático, mais tendinites e coisas de pessoas que não param como distonia muscular (parte dos músculos bem contraída e outra parte pouco desenvolvida). Se a pessoa é mais aquecida, certamente da personalidade Pita, provavelmente com tendências à obesidade, encontramos as mãos mais aquecidas, uma adaptação melhor às gorduras, um menor gosto pelos exercícios físicos e bonachão. Meio Buda. Mas se a pessoa é da personalidade Kapa, tem gosto pelo corpo, o mantém tonificado, não dispensa as proteínas na alimentação (logo têm índice menor de osteoporose) e coisas que podem levar facilmente à contratura muscular.

 

Medicina de Quatro Elementos

Os gregos, sem contato com as outras abordagens, apresentaram uma baseada em quatro elementos: éter, água, terra e fogo. Acreditavam que todas as coisas do mundo eram formadas por estas quatro energias. Por isto levaram séculos tentando descobrir qual a mistura que levaria ao ouro.

Éter consistiria no ambiente onde o Sol, a Lua e os astros dançam conforme a vontade dos deuses. A energia da água faz descer. Aparecem as nuvens, as chuvas, os lagos, os rios, a lama e assim por diante conforme o éter ia descendo e misturando-se à Terra.

Cave o solo e, quanto mais fundo, maior a dureza. No fundo, muito abaixo do que poderíamos escavar, estaria a impenetrável Terra, o que há de maior dureza, em contrapartida ao Éter. Daí o planeta receber esse nome: Terra.

O quarto elemento, nesta linha, se contrapõe à Água: o Fogo que, em vez de fazer descer, faz subir. Que faz a terra amolecer à medida que fica superficial, que faz a terra virar mato; as sementes eram tidas como constituídas essencialmente de terra, devido a sua dureza; com luz e água, brotam, seguindo o fluxo. As árvores e matos vão perdendo consistência, facilitam que se transformem material combustível, que pega fogo, que vira fumaça, que sobre aos céus, que se transforma em ar e, finalmente, vira éter quando alcança o plano das estrelas.

A paixão, para os gregos, como é algo que afeta o corpo, também é formada por estes elementos, a saber éter e fogo: deixam o apaixonado mais agitado e aquecido. Um bom banho frio combate essa energia, diminuindo o desejo e comprovando a teoria.

A partir daí, patologias, alimentos e ambientes são manipuláveis pelo homem.

 

Medicina de Cinco Elementos

A melhor maneira de entender Cinco Elementos é percebê-los como movimentos que se transmutam no elemento seguinte. Cada fase recebe o nome do elemento natural onde este é dominante: Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água.

A água que conhecemos é manifestação em que domina o elemento Água, mas não é Água, da mesma forma que o fogo não é Fogo, apesar de o Fogo dominar no fogo, e assim por diante.

Pensemos na respiração, no dia, nas estações do ano, no namoro e em alguém desempregado. Antes do início do movimento seriam: pulmão vazio, madrugada, inverno, sem parceiro(a) e sem emprego.

O primeiro movimento é de expansão: inspira-se, aumentando o volume pulmonar; o dia raia, aparecendo a luz; a primavera aparece nos brotos e botões, no aumento das árvores e arbustos; inicia-se uma paquera com um olhar, algo que era latente, expectativa, começa a aparecer; o emprego, também latente e expectativa no desempregado, torna-se realidade no primeiro dia de trabalho: é como a madeira que cresce; por isso esta fase recebe o nome de Madeira. Nesta fase domina o comportamento agressividade (não como agressão, mas como competitividade, conquista, expansão).

A expansão leva ao estado de expansão máxima. A fase de expansão máxima (o período mesmo) é chamada de Fogo: o pulmão expandido; o horário do meiodia; o verão; a realização do namoro (um beijo, um motel, o casamento); o desenvolvimento do emprego (o trabalho realizado, o salário recebido, a promoção…). A Madeira se torna Fogo por natureza, assim como se enche o pulmão com a inspiração. Dominam os comportamentos prazerosos (calor humano, união, agitação).

A fase seguinte é chamada de Terra, na qual domina a reflexão (caracterizada por uma diminuição do ritmo): é a frase de contrair antes de esvaziar os pulmões; é a hora da siesta após o almoço (poucos animais possuem atividades neste horário e até o vento costuma dar uma paradinha); é a canícula (aquele período em que se reclama que o outono não chegou, pois continua quente, mas também não é verão porque está muito úmido devido às chuvas); é a hora em que avaliamos o namoro ou o trabalho, ou somos avaliados neles: os possíveis arrufos num, os esforços noutro, e os rendimentos e prazeres que nos estão propiciando. Costuma ser a menor fase (quem disse que todas precisam ter a mesma duração?).

A fase Metal é a fase de contração, de esvaziar os pulmões, do entardecer, do outono (muitas árvores reduzem suas atividades, algumas até perdem todas as suas folhas). É quando dizemos à namorada que não mais queremos buscá-la a três horas daqui para que não venha de ônibus (antes, para ela não vir de ônibus, íamos de bom grado), ela não quer mais frequentar tal lugar de que gostamos; o patrão nos dá uma bronca; dizemos ao patrão que não valeu a pena o aumento de trabalho pelo que recebemos em troca etc. É a hora da poda, do julgamento, de esvaziar os armários, de tirar os excessos e inconvenientes, da mesma forma que esvaziamos os pulmões antes de enchê-los. As vísceras afins são os pulmões e o intestino grosso.

A fase seguinte é a de interiorização; é o pulmão quase todo vazio, é a noite avançada, é o inverno (em muitas árvores nem a seiva circula; quase todos os animais mantêm o mínimo de atividade). Na fase Água o mais importante é se adaptar, se acomodar, "digerir" o período que se encerra.

E a partir desta abordagem, todos os fenômenos naturais são explicados.

Na Madeira, por exemplo, é necessário o tônus muscular para haver investimento. Isto não ocorre com problemas hepáticos, logo, a víscera fígado está associada a ela. O fígado necessita de ferro e cobre para funcionar a contento, logo, alimentos com ferro e cobre estão nos que contém Madeira. Confira na obra Manual do Herói, da dr Sônia Hirsh1.

 

Medicinas energéticas na atualidade

Percebemos que se dividem em alguns grupos: MTC, Energética e Poder da Mente.

Medicina Tradicional Chinesa (MTC). Embasadas na teoria de Cinco Elementos. Esta linha é especialmente forte porque incorporou outras medicinas antigas como a ritualística, a de três e a de quatro elementos, além de ter se adaptado ao sistema de saúde ocidental.

Os antigos demônios são encontrados nessa linha com o título de agressores. A Fleuma, o Vento, o Fogo, o Muco e demais entidades gregas aqui se encontram como malignidades chinesas antigas e atualizadas, mas não mais demoníacas.

A teoria de Quatro elementos e a trilogia são as bases da Astrologia (12 é o produto), mas esta linha prioriza a influência dos astros e não a composição dos quatro elementos nos processos de cura. Normalmente as obras voltadas às artes médicas, quando explicam os quatro elementos, o fazem a partir dos cinco elementos. Quatro elementos, que em nada tinha a ver com os Cinco, agora são explicados como se os gregos apenas tivessem juntado a água e o metal e os chamados de éter! Fácil para quem ignora ou despreza as ciências Filosofia, Geografia e História.

A maioria das obras sobre medicina ayurvédica, senão todas, explicam os tridoshas a partir dos cinco elementos chineses, aumentando o poder e a influência desta linha.

Linhas alternativas de aroma e cromoterapia, de terapia auricular e de várias outras terapias utilizam a teoria de Cinco Elementos, fortalecendo a teoria.

Contando ainda com a adaptação da MTC ao sistema médico tanto social quanto particular, essa medicina ganha lugar de destaque entre as medicinas naturais.

Energia positiva. Encontramos também muitas técnicas, como o Reiki, Cura Prânica, massagem espiritual e a imantação, que defendem que a cura se dá pela canalização de energia cósmica. Lembram que Prana, Ch’i e Ki querem dizer, em sânscrito, chinês e japonês respectivamente, energia. Terapia auricular, reflexologias, cromoterapia e aromaterapia possuem terapeutas que defendem o mesmo embasamento energético. Terapeutas destas linhas constituem grupos bem distintos: um se encaixa com as teorias da MTC, de Cinco Elementos; outro se apóia apenas na circulação energética; há um que prefere priorizar o poder da mente e há aqueles que se priorizam as tabelas (associar o recurso terapêutico com as patologias).

Poder da mente. Muitas linhas atuais, algumas defendidas por crenças e religiões, defenderão que a cura de doenças e as doenças se dão pela capacidade da mente do próprio indivíduo em canalizar energias. Priorizam o potencial humano e não as energias. De certa forma, o autor deste texto, pelo fato de ser psicólogo, tem maior afinidade com esse grupo.

 

Medicina higienista

A terceira grande linha de medicina que temos notícia apareceu na Europa nos séculos XVIII e XIX. Destacou-se da medicina energética porque priorizava a ordem no tratamento das dores e doenças e, em vez de sangria, dominava a fitoterapia e produtos farmacêuticos.

Foi também o aparecimento de médicos para o povo. Antes, o tratamento para os menos abastados era de curandeiros ou de familiares, a base de chás, repouso, água (banhos, escalda-pés etc.), alimentação e até mesmo jejum.

Embasava-se em energia para explicar alguns fenômenos como a gripe já que o microscópio capaz de ver um vírus ou um hormônio só foi inventado na primeira década do século XX, mas a Fisiologia e a Farmacologia ganharam força nessa época.

 

O fim da acupuntura

Em 1822, na China, as autoridades da dinastia Qing proclamaram uma lei que abolia os departamentos de acupuntura e moxibustão da faculdade de Medicina Imperial, fato decisivo para o declínio da acupuntura, que só foi resgatada no século XX2. Algumas obras afirmam que o imperador da época não reagia bem ao tratamento com a sangria e a preteriu em benefício da fitoterapia e há quem coloque a responsabilidade na proposta revolucionária da época, que desejava eliminar vestígios dos impérios antigos.

Ora, esses motivos não justificam tal medida: sempre há casos em que a acupuntura ou sangria perde seu paciente até para a morte, senão teríamos imperadores chineses com milênios de vida. E nenhuma revolução seria do agrado do povo se lhe evitasse curar suas doenças.

Com o desenvolvimento das cidades e, em especial, do artesanato têxtil que reunia milhares de pessoas em um único local, certas patologias encontraram condições propícias para dizimar populações: a gripe, a tuberculose e a lepra (hanseníase). Essas pragas se tornaram frequentes primeiramente nas cortes francesa e inglesa a ponto de eliciar o desenvolvimento do Higienismo, uma nova versão no tratamento das patologias.

 

Os Higienistas

Os higienistas foram os primeiros médicos que se voltaram ao controle de epidemias populares. Antes, os médicos só tinham olhos para as cortes e os exércitos. Como a fitoterapia, hábitos alimentares e procedências higiênicas conseguiam certo controle daquelas pragas enquanto que as sangrias não, a substituição foi paulatinamente ocorrendo à medida que o ciclo do algodão tomava força pelo mundo, inclusive na China, outro forte produtor dessa matéria prima.

Os estudos higiênicos acompanhavam mudanças radicais na cultura. Como as relações profissionais: antes senhor feudal e vassalo, agora patrões e empregados. Alterava-se a filosofia de vida, a arquitetura, os mecanismos de poder, enfim, a época da colonização seguida da industrialização foram responsáveis por mudanças radicais. Tanto no Oriente quanto no Ocidente.

 

O algodão e a extinção da acupuntura molhada (sangria)

Enquanto o principal local para se viver eram o campo e as pequenas cidades, as sangrias forneciam resultados satisfatórios com os males comuns da época. Como dores de cabeça ou barriga, febre, viroses, cólicas menstruais, prisão de ventre e constipação. Mas a sangria não promove a cura da hanseníase, da tuberculose e das gripes, que àquele tempo eram tratadas com algum tipo de isolamento (da cidade ou pelo menos do convívio social).

Sabemos que a grande concentração de pessoas em cidades, a partir do século XVII, marcava o fim de uma época basicamente latifundiária.

A era de colonização das Américas e outros continentes levou para a Europa muitos bens e valores. Entre eles o algodão. Esses valores nas mãos dos burgueses foram fundamentais para a diminuição do poderio hegemônico da Igreja e o desenvolvimento das cidades.

O algodão foi plantado em várias colônias. No Brasil, tivemos o ciclo do algodão. O clássico E o Vento Levou mostrou fazendas de algodão norteamericanas. Esse cultivo foi destaque também na China, na Índia e em muitas outras colônias e países pelo mundo. Boa parte da produção era enviada para a Europa, que concentrava grandes galpões de artesãos.

Aglomeravam-se de mil a vinte mil artesãos na produção dos produtos têxteis.  Numa época em que não havia a prática do uso do sabonete, do banho, das pastas de dentes, sequer do papel higiênico ou do vaso sanitário.

Prosperaram aquelas doenças que eram tratadas com isolamento e não tinham bom resultado com as sangrias.

Mas isto não teria sido ainda o motivo para o aparecimento da medicina para o povo, mas o fato de essas doenças tornarem-se regulares na corte. Engels registrará que a Inglaterra, pela sua dimensão restrita, e a França, pelo seu grande desenvolvimento e concentração de pessoal, foram os dois países que primeiro investigaram meios de tratar aqueles males.

A acupuntura não dava mais o resultado necessário. Foi paulatinamente substituída durante o século XVIII pela Fitoterapia e pela medicina higienista. Inclusive na China, outro grande produtor de algodão, onde a substituição se deu no século XIX. Portanto não foi à toa que o imperador preteriu a acupuntura.

 

Os idosos perdem o poder

Influenciados por Augusto Conte, seus colaboradores e sucessores, idealizadores e sistematizadores do Positivismo, os médicos responsáveis por controlar as patologias desenvolveram sistemas que valorizavam a ordem: algo cultural da época e não da classe médica. Aparecia a ordem médica que, no século seguinte, seria mais valorizada que a dos idosos. Os idosos, antes tão valorosos e centralizadores do poder e do conhecimento, foram perdendo seus valores para a classe médica3.

Os colégios internos explodiram enquanto a arquitetura mudava e os médicos alcançavam o poder. Aglomerados de cubículos foram destruídos para dar lugar às ruas, sistemas de escoamento de esgotos e possibilidades de controle social.

 

Ordem médica

Neste período, por valorizarem a Ordem, acreditava-se que a falta de ordem seria o motivo para muitas das doenças. A TPM, por exemplo, até a Segunda Grande Guerra, era tida como um problema feminino que, se a jovem se submetesse às orientações paternas e a mulher, às do marido, não existiria4. O outro motivo para justificar a TPM seria o fato de a jovem ter se ocupado com os dons do conhecimento, que faria a energia subir. Médicos até a Segunda Grande Guerra, antes de descobrirem os hormônios, associavam cólicas femininas, hoje TPM, ao útero (histeria) e tinham como base a falta de obediência ao pai ou o fato de ter feito a energia subir: mulheres não deviam se interessar por filosofia ou outros conhecimentos para não fazer a energia subir, mas apenas pelo marido, filhos e casa, única forma de manter sua saúde.

 

O aparecimento das reflexologias

Os médicos higienistas aprofundaram os estudos dos sinais, prática que vinha desde a medicina ritualística. A pele, as fezes, a língua, o olhar, os hábitos, o tônus muscular, a urina e vários outros sinais eram cuidadosamente observados e associados à patologia.

Sir Henry Head, de Londres, em 1898, acreditou ter descoberto a existência de zonas da pele que se tornavam hipersensíveis à pressão quando um órgão ligado por nervos a essa região da pele apresentava alguma doença5.

A codificação da iridologia foi feita por Ignatz Von Peczely, também nos últimos anos do séc. XIX6. Freud, aquele da psicanálise, também na mesma época, mantinha correspondência o dr Fliss, que acreditava numa reflexologia na mucosa nasal. Louis Van Steen7 remonta a reflexologia vertebral a 1912, nos trabalhos do Dr Abrams, seguido dos doutores Regnault (1927), Leprince (1931) e Soulier de Morant (1939).

Quanto a reflexologia auricular, seu primeiro trabalho foi apresentado por Nogier, em 19518.

Em 1958, P. Nogier apresentou o homúnculo auricular que foi a base para o desenvolvimento da terapia auricular.

 

Medicina para o povo na China

Sabemos que a China abandonou a medicina antiga no século XVIII, um pouco depois dos países europeus, como todas as colônias européias e países partidários, adotando a medicina higienista, por motivos já explicados.

Derrotada nas Grandes Guerras e controlada pelo imperador Mao Tsé Tung, a China passou por fase negra em todos os sentidos. Lendo em especial Li Zhisui9, o último médico chinês de medicina ocidental a tratar do imperador Mao Tsé Tung, tomaremos conhecimento do projeto Grande Salto para a Frente, do imperador, no período de recuperação da primeira Grande Guerra. O projeto, responsável pelo atual desenvolvimento e destaque da China na situação mundial, imprimiu décadas de sofrimento ao povo: o imperador proibira a importação de qualquer coisa, inclusive remédios. Na literatura comentada, tomamos conhecimento da morte de 8 milhões de chineses por fome e que haviam aldeias nas quais, por falta de recursos, as pessoas andavam literalmente nuas. Mao, sem dúvidas, condenou milhões de chineses na primeira metade do século XX à miséria e à morte por fome e falta de recursos médicos para que a China alcançasse o estágio atual.

 

Por que alguns chineses comem até baratas

Devido ao fato de não haver alimentos suficientes e muitos chineses terem morrido de fome, esse povo, seguido de outros que também sofreram muito com a fome, tomaram hábitos alimentares exóticos. Comer qualquer coisa que não seja venenoso. Como aranhas, escorpiões, baratas, ninhos de andorinha, qualquer carne, inclusive de ratos, gatos e cães. Quem não comesse, corria risco maior de morte.

 

Porque as medicinas antigas são chinesas

Além das condições socioeconômicas miseráveis já descritas, a China acumulava outras condições que facilitaram ser lá que as terapias antigas tiveram centro de aglutinação e revivamento.

Primeiro a visão do imperador e do partido comunista, que pelo projeto Grande Salto para a Frente, pode levar um país derrocado com a primeira Grande Guerra ao desenvolvimento a ponto de colocar a China entre as principais economias do mundo na entrada do século XXI.

Em segundo, a dureza e domínio do sistema de governo que, pela força, conseguiu se manter e ao projeto; ainda hoje percebemos tanto o autoritarismo quanto a visão futurista desse governo. Como no controle da natalidade no país.

Em terceiro porque esse governo valorizou o resgate das medicinas antigas, fundamental para o projeto base do governo e a saúde do povo. Desde os demônios antigos, hoje apenas agressores, até as reflexologias, sem dispensar as sangrias, as ventosas, a fitoterapia e as teorias energéticas. Até as teorias de três e quatro elementos, de origem ayurvédica e grega, hoje em dia, são explicadas a partir dos cinco elementos chineses, como já comentei.

Em quarto lugar, também devido ao autoritarismo do governo, não ser admitidos concorrentes. Há apenas uma linha de acupuntura na China, mesmo que tenha várias especialidades, apenas uma de shiatsu e assim por diante. As pesquisas chinesas podem apresentar propostas para somar, mas não para discordar das antigas, como ocorre com as acupunturas e shiatsus japoneses e franceses. Não podemos esquecer que o governo chinês é responsável por mais da metade de todas as condenações oficiais (do governo) de morte do mundo.

Em quinto lugar, sem menor mérito, a escolha do título: ao nomear de Tradicional a sua medicina, lá pela década de 50, ficamos com a impressão que essa medicina é praticada da mesma forma há milênios. O nome MEDICINA TRADICIONAL CHINESA impõe, pela sua estrutura, a impressão de ser uma prática milenar. 

 

Tem certeza?

Sei que a grande maioria dos terapeutas se assusta com essas informações. Posso adiantar o seguinte:

Jesuítas, pela Companhia das Índias Ocidentais, participavam de todas as cruzadas ao oriente. E escreviam tudo que viam.

A pólvora certamente foi algo muito valioso, especialmente para a hegemonia inglesa nos sete mares. E é uma invenção chinesa.

O trigo é altamente difundido na Europa, em especial na Itália, onde se consome muito macarrão e pizzas. E também é um produto chinês.

Gutemberg desenvolveu a máquina gráfica no século XV. Utilizou papel chinês.

As caravelas portuguesas foram lançadas ao mar e algumas chegaram ao Brasil em 1500. O início da colonização tinha o objetivo, entre outros, de conseguir seda chinesa.

Ora, o alimento (trigo) e a guerra (pólvora) sempre foram vitais para os povos. Por que só a acupuntura teria ficado de fora, totalmente invisível e desconhecida até 1960, como alguns querem crer? Impossível, não? Já que a prática de sangria fora registrada em todos os povos orientais. Afinal acu-puntura não quer dizer, literalmente punção de ponto, como a sangria?

Mas isto já é assunto para o texto Debaixo do Tapete na Acupuntura.

 

A medicina medicamentosa

A quarta medicina não se baseia mais nem na energia, nem no controle dos hábitos, apesar de mantê-los. A eficácia da farmacologia no tratamento dos sintomas passa a dominar a prática, sem contudo abandonar ainda que algumas patologias se davam devido à energias negativas. A influência nos hábitos, antes uma questão de ordem, perdeu importância e passou a ser tratada como algo receitável como os remédios. Sugiro a obra O conselheiro médico do lar4 aos que desejam conferir a recomendação médica associando hábitos, locais, ervas, hidroterapia, enemas e produtos farmacêuticos.

Para pensarmos as diferenças estruturais entre essa e as outras medicinas, devemos considerar que o microscópio só foi inventado em 1902. Apenas em 1905, um vírus foi visto. Os hormônios, as vitaminas, os gens e os anticorpos só foram investigados na sua relação com as doenças praticamente na metade do século XX, durante ou logo após a Segunda Grande Guerra. Até isto ocorrer, quadros viróticos e distúrbios hormonais eram considerados problemas energéticos.

Com o advento da penicilina e outros antibióticos, ampliou-se os recursos médicos no tratamento de doenças. Estudos, pesquisas e laboratórios destacaram a prática médica nesse tratamento deslocando o foco higienista para o medicamentoso ou cirúrgico.

O desenvolvimento dessa medicina trouxe ampliação tanto das práticas médicas como de outras técnicas como a Psicologia, a Fisioterapia, a Farmacologia e várias outras profissões. Conta até com recursos legais e das engenharias na oferta de técnicas constantemente atualizadas e renovadas.

Destacam-se, ainda, três características nesta medicina: o uso de exames das mais diversas ordens, a tendência de patologizar tudo que não seja em acordo com padrões preestabelecidos e a sindromização.

 

Críticas à medicina medicamentosa

A principal crítica é a perda do sentido das doenças. Ao analisar profundamente uma patologia ou um sintoma, a medicina a associa a características que podem ser identificadas em exames. A eficácia no alívio dos sintomas cria a certeza que aquelas características eram responsáveis pela doença, fazendo desaparecer as características humanas no seu próprio adoecimento.

Considerando gastrite inflamação da mucosa gástrica ou duodenal, bronquite inflamação dos brônquios, tendinite inflamação dos tendões e outros casos inflamatórios, bastam remédios, cirurgia ou algum outro protocolo para tratar o mal. A situação no emprego ou na família, a má postura, ou outra atividade ou emoção que pode ter gerado o mal, é ignorada. E regularmente são descartados os recursos da Psicologia, da Fisioterapia, da Filosofia ou de alguma terapia natural que poderiam não apenas ter curado o mal, mas os motivos dele.

Outra forte crítica é a sindromização. Ao tratar um quadro pelos seus sintomas, correm o risco de estarem aliviando sintomas e não, obrigatoriamente, o mal.

 

A medicina interdiscilinar

  Apesar da regência da classe médica na área da Saúde, a multidisciplinariedade vem aumentando tanto os recursos quanto o conceito de saúde. Resumindo o conceito atual de saúde da OMS, inclui todo e qualquer tema que diga respeito à bem estar e qualidade de vida. Não apenas Nutrição, Odontologia, Psicologia e Fonoaudiologia se somam na promoção do bem estar. Até Estética, Beleza, Direito, como o direito de viajar em ônibus, e atos políticos, a cada dia, estão conseguindo reconhecimento do seu valor para a Saúde sob o tema Qualidade de Vida.

Estamos admirando o despertar de uma medicina interdisciplinar. Mas não se engane o leitor com o título inter ou multidisciplinar. Na prática, outros profissionais só são requisitados nos casos em que a medicação não alcança os resultados desejados, o cliente/paciente importuna os profissionais da Saúde com o seu desejo de se curar e, além disto ainda, não concordar com a frase: é da idade, tem que se acostumar com isso. Se não ocorrerem pelo menos duas destas condições, apenas a Medicina costuma ser ofertada.


Bibliografia

1 Hirsch, Sônia. Manual do Herói. Rio de Janeiro: CorreCotia, 1990.

2 Maciocia, Giovanni. Os fundamentos da medicina chinesa. 2 ed. São Paulo: ROCA, 1007. Pg. 5.

3 A, Costa, Jurandir Freire. Ordem médica e norma familiar. 2 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1999.

4 Swartout, Dr Humberto. O conselheiro médico do lar. São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 1941.

5 Dougans, Inge & Ellis, Suzanne. Um guia passo a passo para a aplicação da reflexologia.  São Paulo: Cultrix, 1992.

6 Batello, Celso. Iridologia e irisdiagnose. O que os olhos podem revelar. São Paulo: Ground, 1999. Pg. 18.

7 Steen, L. Van. O reflexo vertebral – técnica das percussões e terapêutica. São Paulo: Andrei Editorial, 1983. Pg. 13.

8 De acordo com matéria no jornal Prana de Julho/2000, Rio de Janeiro, assinada pelo professor Antônio Rocha, do Instituto Sohaku – Abaco – Unimes.

9 Zhisui, Li. A vida privada do camarada Mao – memórias do médico particular de Mao Zedong. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.

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