Mecanismos Terapêuticos
Crítica à Medicina

Por Carlos Roberto Serrão Haddad –haddad.ibted@gmail.com
Baseado na obra Como as Medicinas Naturais Funcionam
Sindromização: uma crítica à Medicina Atual

A Medicina recebe várias críticas, entre elas a de sindromizar sintomas.

Sintomas. Referem-se a alterações e distúrbios no organismo. Como a febre, a diarréia, a taquicardia e a dor de cabeça.

Viroses, infecção dos rins, febre amarela, dengue, queimaduras (inclusive pelo sol) e muitas outras patologias provocam febre. Desidratação, infecção do sangue, dificuldades respiratórias ou esgotamento físico podem provocar taquicardia. Diabetes, compressão cervical, dificuldades digestivas, anemia e muitos outros males podem provocar dores de cabeça. Assim os sintomas não são patologias apesar de estarem em várias delas.

Vejamos alguns exemplos de síndromes.

Fibromialgia. É uma síndrome dolorosa crônica e sem inflamação. Caracteriza-se por fadiga, falta de flexibilidade pela manhã; formigamento ou falta de sensibilidade nas mãos e pés; sono superficial e não reparador (alterações não na duração, mas na qualidade); depressão  e/ou ansiedade; dor de cabeça; dor abdominal com períodos de prisão de ventre intercalados com diarréia; ciclos menstruais doloridos. Em nenhum momento há inflamação ou deformidade nas articulações e os movimentos não estão limitados. Os sintomas duram por anos sem modificações importantes. O diagnóstico principal é feito pela análise dos tender points. Existem protocolos para diferenciar fibromialgia de SDM, mialgia de fadiga e artrite reumatóide.

SDM – Síndrome Dolorosa Miofascial.  A diagnose se dá pela sensibilização dos pontos gatilho (Tigger points), pequenas áreas tensas e doloridas, quase sempre sobre músculos. A dor aumenta quando a região é pressionada. Pode se originar em um único músculo ou pode envolver vários. Existem protocolos para diferenciar SDM de fibromialgia (tender points) e da mialgia de fadiga.

TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo. O TOC é um transtorno mental incluído pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Americana (DSM-IV) entre os chamados transtornos de ansiedade. Manifesta-se sob a forma de alterações do comportamento (rituais ou compulsões, repetições, evitações), dos pensamentos (obsessões como dúvidas, preocupações excessivas) e das emoções (medo, desconforto, aflição, culpa, depressão). Sua característica principal é a presença de obsessões: pensamentos, imagens ou impulsos que invadem a mente e que são acompanhados de ansiedade ou desconforto, e das compulsões ou rituais: comportamentos ou atos mentais voluntários e repetitivos, realizados para reduzir a aflição que acompanha as obsessões. Dentre as obsessões mais comuns estão a preocupação excessiva com limpeza (obsessão) que é seguida de lavagens repetidas (compulsão). Um outro exemplo são as dúvidas (obsessão), que são seguidas de verificações (compulsão). Obsessões são pensamentos ou impulsos que invadem a mente de forma repetitiva e persistente. Podem ainda ser imagens, palavras, frases, números, músicas, etc. O indivíduo, no caso do TOC, mesmo desejando ou se esforçando, não consegue afastá-las ou suprimi-las de sua mente. Apesar de serem consideradas absurdas ou ilógicas, causam ansiedade, medo, aflição ou desconforto que a pessoa tenta neutralizar realizando rituais ou compulsões, ou através de evitações (não tocar, evitar certos lugares).

Transtorno ou síndrome do Pânico. Os sintomas físicos de uma crise de pânico aparecem subitamente, sem nenhuma causa aparente. São como uma preparação do corpo para alguma "coisa terrível". A reação natural é acionar os mecanismos de fuga. Diante do perigo, o organismo trata de aumentar a irrigação de sangue no cérebro e nos membros usados para fugir - em detrimento de outras partes do corpo. Eles costumam incluir aumento do batimento cardíaco, da contratura muscular, da pressão saguínea e do ritmo respiratório; por outro lado costuma reduzir as atividades gástricas, as geniturinárias e as do córtex frontal. Podem ocorrer palpitações, calafrios ou ondas de calor, sudorese e a sensação de "estar sonhando" ou distorções de percepção da realidade, sempre acompanhado da sensação de que algo inimaginavelmente horrível está prestes a acontecer. Dura por vários minutos e pode gerar fobia a lugares, situações ou pessoas.

A Medicina recebe duras críticas quanto a isto:

  1. Sindromização de sintomas,
  2. Sindromização de quadros de angústia e
  3. Genetização ou naturalização dos sintomas.

1) Sindromização de sintomas

Vejamos a opinião do leitor para a sindromização da febre e da diarréia.

Síndrome Térmica. Esta síndrome caracteriza-se por estado alterado de consciência com redução do raciocínio, dificuldades para o sono, aumento da temperatura corpórea e a sensação de mal-estar; regularmente ocorrem transpiração excessiva, diarréia e, em quadros mais acentuados, convulsões. O tratamento é feito com antitérmicos. Se um destes sintomas ocorrer, procure um médico na especialidade Térmica.

Síndrome Fluídica. Esta síndrome caracteriza-se por perda do tônus muscular, taquicardia, sonolência, desidratação da pele, diarréia e cansaço. Reage bem com soro hidratante, recompositor de flora intestinal (tipo Floratil), alimentos a base de amido; evitam-se gorduras, temperos, sal e açúcares. Eventualmente há a necessidade de antibióticos. Se um desses sintomas ocorrer, procure um médico na especialidade Fluídica.

Cientificamente seriam, então, febre e diarréia, síndromes? Não, certamente não, por que são sintomas: ocorrem em várias patologias.

Também isto não é ciência. Apesar de ser produto da observação, faltam investigar os motivos, as relações com outras patologias e outras coisas que caracterizam a ciência. Tampouco é uma boa piada porque dificilmente provoca risos. Mas é o que está ocorrendo na Saúde.

Fibromialgia. Chaitow¹ oferece nove hipóteses: cronobiológica, genética, integrada, disfunção imunológica, cociptiva, neurossimpática, de retenção, de hormônio de estresse (deficiência de cortisol) e de disfunção do hormônio tireoidiano. De acordo com esse autor, existem pelo menos nove caminhos que nos levam à Fibromialgia. Pessoalmente posso colocar mais um, mas deixo para o texto Fibromialgia.

Síndrome Dolorosa Miofascial. Reconhece-se vários fatores para a SDM: traumas (macro e micro traumas), infecção ou inflamação devido a uma patologia de base, alterações biomecânicas apendiculares (discrepância de membros, aumento acentuado dos seios) e axiais posturais, distensões crônicas, esfriamento de músculos fatigados, miosite aguda e isquemia visceral (ZOHN, 1988). Outras causas incluem: lesões localizadas de músculos, ligamentos, cápsulas articulares, doenças viscerais, desequilíbrios endócrinos, exposição prolongada ao frio, deficiência de vitaminas C, complexo B, estrógeno, K+ e Ca+, anemia, baixa taxa metabólica, hipotireoidismo, creatinúria, stress emocional, tensão ou fadiga, inflamação e deficiência muscular (MANNHEIMER E LAMPE, 1984; FISHER, 1986).  Ora, já sindromizaram a dor! Mas apenas quando está localizada sobre um ponto miofascial...

A sindromização facilita o tratamento. Como antitérmicos na síndrome Térmica.

Sabemos da importância de descrever as síndromes em vários quadros, como a síndrome de Guilian Parret e muita outras. A Medicina, na atualidade, vem aproveitando as vantagens de várias síndromes já terem sido identificadas para sindromizar à torto e à direita, com a aceitação de praticamente todos, sejam ou não da área da Saúde! 

 

2) Sindromização de quadros de angústia

No caso da síndrome do pânico e do TOC, ambas as síndromes estão catalogadas no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Americana (DSM-IV) entre os chamados transtornos de ansiedade.

Não seriam apenas sintomas de um quadro de angústia e não doenças?

O lado humano e as psicoterapias, no caso da sindromização da angústia, fica em segundo plano.

Basta observarmos a síndrome do pânico. Os sintomas são exatamente iguais à situação de termos uma arma apontada para a nossa cabeça com um marginal gritando: vou te matar, infeliz. São exatamente as reações do sistema nervoso simpático a situações de ameaça. De alguma forma o organismo reconhece algo terrivelmente perigoso e reage. Racionalmente não identificamos o perigo, mas várias linhas, a começar pela do Freud, observou que o problema se dá a partir da percepção. Alterando-se esse mecanismo, o mal é compreendido e se vai. Linhas como a Psicologia Comportamental costuma debelar o mal em poucas semanas ou meses.

Não pretendo afirmar que os remédios são inúteis. Pelo contrário, podem criar as condições necessárias para que o sofredor busque a terapia. Tampouco tenho a intenção de afirmar que a síndrome do Pânico não corresponde às alterações descritas: correspondem com a descrição da síndrome tanto quanto a descrição das síndromes Térmica e Fluídica: com perfeição suficiente para parecer científica. Mas, nesse caminho de raciocínio, não valorizamos a situação perceptiva que gerou o fato e que, se identificada, poderia não só curar o esse quadro, como prevenir futuros problemas de ansiedade e que, de quebra, evitaria o uso de neurolépticos. 

 

3) Genetização ou naturalização dos sintomas

A terceira crítica quanto à sindromização é a genetização ou a naturalização dos sintomas.

Considere uma sensação de angústia: medo ou ansiedade. Esta sensação possui duas características: uma situação e uma reação bioquímica.

Situações de agressão como discórdia familiar, dificuldade financeira, criminalidade e o conhecimento de atos impróprios de políticos podem gerar uma dessas sensações: medo ou ansiedade. Coisas que fazem parte da vida de qualquer um na atualidade. O organismo reage: seu mecanismo simpático é acionado, provocando aumento de neurotransmissores como noradrenalina, dopaminas, endorfinas e outros, reduzindo os neurotransmissores serotonina, oxitocina e outros. Se considerarmos a situação de agressão, afirmaremos que nossa percepção é que provoca o quadro de Pânico ou o TOC. Mas como a ingestão ou injeção de neurolépticos corretivos organiza os hormônios, o distúrbio nos neurotransmissores é considerado a gênese da sensação! Ignoram ou atribuem valor mínimo à situação original e responsabilizam a genética ou a natureza pelo fato, ou seja, consideram que os hormônios se alteraram devido à genética ou à natureza humana, que passa a ser a responsável pelo mal. Em caso de fracasso, e apenas assim, é que as psicoterapias são convocadas. 

Em especial acuso o transtorno da hiperatividade e falta de atenção, regularmente identificada por educadores em alunos infantis ou jovens. Como os remédios colocam o quadro sob controle, a alteração hormonal é considerada a causa, excluindo a busca pelos motivos situacionais, que requisitariam outro profissional.

Há quem afirme que exagero quando afirmo que a psicoterapia é preterida. Afinal, várias pessoas são encaminhadas à psicoterapia. Certamente. Quando os remédios não deram conta e o paciente incomoda porque quer se curar. Ou seja, apenas quando o psicopedagogo ou o médico está com dificuldades. Ora, é isto que considero quando afirmo que a psicoterapia é preterida.

 

Consideração especial

Não pretendo de forma alguma depreciar ou retirar um ponto qualquer na importância da Medicina para a saúde humana. Leitores dos meus textos sobre protocolos alternativos para o tratamento de patologias estão acostumados com a orientação final em que discordo da orientação em caso de persistirem os sintomas, procure um médico. Sempre completo que as terapias alternativas podem e costumam aliviar sintomas e, dessa forma, podemos estar mascarando um mal. Assim sempre oriento que todo tratamento alternativo seja acompanhado por um médico, único qualificado e preparado para diagnosticar o mal.

Minha crítica é bem direcionada: a abordagem médica retira praticamente todas as opções alternativas no tratamento. E muitas vezes existem opções mais humanas, mais econômicas e mais eficazes no tratamento de vários males que um remédio ou cirurgia. A sindromização à esmo só agrava o quadro.

 

Conclusão. As síndromes, além de regularmente tratar de várias patologias de uma única forma, costumam ignorar os verdadeiros motivos do mal e, por isto, deveriam ser mais bem definidas antes de serem aceitas pela classe médica.


¹ Chaitow, Leon. Síndrome da fibromialgia- um guia para o tratamento. Manole: São Paulo, 2002.

Simons, David G., Travell, Janet G. & Limour, Loin S. Dor e disfunção miofascial. Manual dos pontos gatilho. Vol I e II. São Paulo: Artmed.

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