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Crítica à Drenagem Turbinada

As diferenças técnicas entre drenagem linfática, massagem estética e drenagem turbinada

Carlos Roberto Serrão Haddad


Com o surgimento da Drenagem Turbinada, que se propõe a utilizar recursos da drenagem e da estética, vimos brotar uma linha de drenagem bem diferente das demais: todos os trabalhos de drenagem linfática são suaves enquanto que a turbinada, não. Esta drenagem vem ganhando terreno rapidamente no interesse dos clientes e dos terapeutas e, apesar disto, não oferecemos este curso aqui no IBTED, instituto promotor de cursos de especialização em terapias corporais. Os motivos estão explicados abaixo.

O que é Drenagem Linfática?

Drenagem Linfática consiste em manobras de massagem que utiliza pressões graduadas e constantemente alteradas, imitando as contrações próprias da musculatura lisa dos vasos linfáticos, no intuito de estimular a circulação da linfa. A linfa é um líquido imunológico branco e viscoso que se origina nos espaços intersticiais (entre as células) e tem seus próprios canais até desembocar em certos pontos da circulação venosa. A circulação linfática se dá através de fatores intrínsecos e extrínsecos que aumentam a pressão da musculatura e acionam os linfângios (válvulas que dirigem esta circulação). Enquanto que em uma pessoa em repouso, o coração faz circular cerca de 5 litros de sangue por minuto à pressão normal de 120 mmHg, a circulação de linfa remonta apenas à 100 ml por hora (Guyton, pg 126).

O sistema linfático representa uma via acessória ao sistema circulatório pela qual pode fluir líquido dos espaços intersticiais para o sangue. E, o que é mais importante, os capilares linfáticos podem transportar proteínas e grandes partículas para longe dos espaços dos tecidos, muitas das quais não poderiam ser absorvidas para os capilares. Essa remoção de proteínas dos espaços intersticiais é uma função absolutamente essencial, sem a qual morreríamos em 24 horas (Guyton, pg. 124).

O sistema linfático se estende por todo o organismo em forma de rede, iniciando-se pelos capilares linfáticos, que confluem para formar os coletores pré-nodais. Vários desses coletores (vasos aferentes) caminham para os linfonodos e quando os deixam (pós-nodais) são denominados de coletores eferentes. Normalmente são em menor número do que quando chegam aos linfonodos. Esses coletores eferentes caminham para formar os troncos linfáticos que formarão os ductos linfáticos. Os ductos linfáticos são os vasos da porção final da drenagem linfática que desembocam no sistema venoso, ao nível da junção subclávia-jugular  onde a partir daí a linfa, já no sistema venoso, caminha para o coração.

O sistema linfático possui vasos superficiais e profundos. Os vasos superficiais são muito numerosos e possuem grande quantidade de anastomoses. Localizam-se acima da fáscia muscular e drenam os tecidos superficiais. Seu trajeto acompanha as veias e a drenagem é feita para os linfonodos superficiais. Já os vasos linfáticos profundos não são tão numerosos, possuem poucas anastomoses, localizam-se abaixo da fáscia muscular e são responsáveis pela drenagem de músculos, órgãos, vísceras e cavidades articulares (Borges pg 346), seu trajeto acompanha os vasos sanguineos profundos e sua drenagem se dá para os linfonodos profundos.

O que é Massoterapia Estética?

Todas as terapias com fins estéticos – massagem estética, massoterapia lipomodeladora, lipoescultura manual, nutrição ou mesmo a cosmetologia estética – concentram seus recursos em cinco mecanismos:

1) Queima dos adipócitos  (células de gordura), que têm capacidade de armazenar até 97% do lipídio do corpo.

2) Equilíbrio entre o consumo e o gasto calórico.

3) Redução do tamanho das placas de gordura.

4) Estimulo dos  fibroblastos, células que produzem colágeno, elastina e reticulina, proteínas fundamentais para a beleza.

5) Estimulação hipotalâmica, pois o hipotálamo produz hormônios indispensáveis à saúde e à sensação de bem estar.

1) Queima de adipócitos.  Esse trabalho é feito promovendo-se aumento do metabolismo por fricção manual, exercícios, aparelhos ou produtos que esquentam ou resfriam[1] a pele. A enzima Monofosfato Cíclico de adenosina – AMPc,  substância liberada no adipócito  por ação efetiva das mitocôndrias – transforma a gordura em ácidos graxos livre e glicerol, que são absorvidos e eliminados do tecido adiposo. O calor interno leva a mitocôndria a produzir maior quantidade de AMPc, o aumento na circulação traz mais oxigênio ao local e estas condições, conseqüentemente, aumentam a hidrólise das gorduras.

2) Equilíbrio entre o consumo e o gasto calórico. Quando a produção daquela enzima na célula não é suficiente para queimar o excesso de gordura, acontece o acúmulo da mesma na própria célula (Borges, pg 285). Também é relevante que haja equilíbrio entre ingestão calórica e consumo energético, ou o excesso será armazenado no adipócito.

3) Redução do tamanho das placas de gordura. Alguns mecanismos de promoção do metabolismo exercem esforço mecânico sobre as placas de gordura, reduzindo-as. Como o rolo de massagem, o bambu, Pedras roladas, certas manobras da massoterapia e o ultra-som.

4) Estimulo dos fibroblastos. Quando estimulado, o fibroblasto torna-se ativo e aumenta a produção das suas proteínas.

5) Estimulação hipotalâmica. Inúmeros são os recursos que promovem este estímulo. Os toques superficiais, as sensações de receber, ser útil e deter o poder ou a força, a cafeína e a propriocepção. Mas este mecanismo não costuma ser comentado como prioridade nas terapias estéticas, apesar de o ser em nossos cursos.

O que é drenagem turbinada

Como essa técnica é muito recente, não conhecemos obras acadêmicas com esse tema. Recorremos a informações em matérias editadas em revistas e, especialmente, que circulam na Internet.

Mesmo que o leitor não se submeta a uma seção para conhecê-la, verá sua afinidade com a massoterapia estética:

De acordo com o site www.corpodigital.com.br/Edicoes/221/artigo49356-1.asp, Drenagem turbinada utiliza movimentos manuais intensos de amassamento por todo o corpo, a fim de ativar a circulação e ajudar na liberação de toxinas acumuladas nos tecidos.

Para o site www.atmosferafeminina.com.br/internas/redirect.aspx?page=materias/detalhe_simples .ascx?materia_id=88, Drenagem linfática profunda, também chamada de drenagem turbinada ou lipoescultura manual, é o massageamento de todo o corpo, com movimentos intensos, que ativam a circulação, dissolvendo a gordura localizada eliminando as toxinas. Esta é uma técnica mais profunda da drenagem, é feita também com as mãos usando movimentos mais vigorosos que a tradicional. Dura cerca de uma hora, ela desintoxica e purifica o sangue e a pele, ao mesmo tempo que elimina a retenção liquida, responsável pelo inchaço local.

Outros sites destacam as vantagens dessa técnica: Drenagem turbinada, drenagem power e drenagem modeladora são alguns nomes da técnica que se tornou a queridinha dos centros de estética e beleza (www.ig.bemleve.com.br/beleza/drenagem-modeladora). O mesmo site afirma que 'A vantagem desse tratamento é que depois de dissolver a gordura, é possível drená-la para que ela seja expelida pela urina e pelo suor'.

Um outro site (www.clinicasatisfaction.

com.br/drenagem.htm) afirma que é uma massagem feita em todo o corpo durante uma hora, visando a desobstrução e ativação do sistema linfático, para drenar as toxinas acumuladas no sangue e na pele, eliminando as impurezas do organismo, através das fezes, suor e urina. Melhora e ativa a circulação sanguínea e linfática, elimina o inchaço, sensação de peso e cansaço nos pés pernas e braços. É indicada no tratamento da celulite, gordura localizada e retenção líquida. Além de ser fundamental no pré e pós-operatório. Esse tipo de massagem tem como finalidade esvaziar as células adiposas, que formam o tecido onde as gorduras se acumulam. Os movimentos mandam embora toda a gordura que fica lá dentro. É quando essas células perdem volume que o tratamento começa fazer efeito.

Tópicos relevantes na drenagem linfática

Aparentemente os defensores da Drenagem Turbinada ignoram certas características da drenagem linfática:

1) Freqüência das manobras;

2) Pressão das manobras;

3) Ação do aumento metabólico na drenagem linfática.

1) Freqüência das manobras. O número de manobras que efetuamos por minuto é relevante na Drenagem linfática.

Os linfângios possuem uma camada de músculo liso com uma capacidade inata de se contrair. Essas contrações espontâneas são consideradas a força primária que propulsiona a linfa para frente, de um para o outro seguimento. O ciclo nos linfângios da perna humana varia de 1 a 9 contrações por minuto. De acordo com Cassar (pg. 43): uma taxa media de 10 contrações por minuto é citada por Verholser Moody (1980), que também computam a extensão de um linfângio em 1 cm. As observações têm demonstrado que, com cada contração, o linfangio é esvaziado de seu fluido. Isso significa que a linfa percorre a extensão do linfângio (1 cm) durante cada contração (Smith, 1949). Se a linfa é movimentada 1 cm e a taxa é de 10 contrações por minuto, então sua velocidade é de 10 cm por minuto. A relevância desse calculo é que, para que seja eficaz, a massagem (drenagem linfática) precisa ser realizada em uma velocidade equivalente. (grifos nossos). Assim, fica claro que movimentos rápidos e bruscos descaracterizam a drenagem linfática.

2) Pressão das manobras. Outro fator de destaque é a efetiva pressão das mãos do terapeuta sobre a pele.

A pressão que movimenta os canais linfáticos no seu interior está abaixo da pressão atmosférica, nos coletores está entre 0,98 e 1,75 g/cm2. A medida que chega aos linfonodos, a pressão aumenta para 30,02 – 37,96 g/cm2. essas pressões são suficientes para estimular os mecanorreceptores e causar contrações reflexas da parede do vaso linfático. À medida que a pressão aumenta levemente, a velocidade das contrações também é intensificada; contudo, uma força muito grande tem o efeito contrário, isto é, o fluxo de linfa torna-se mais lento ou cessa completamente. O que pode resultar na formação do edema ( Zweifach e Prather, 1975).

Para ser eficiente, a massagem linfática precisa apenas da pressão suficiente para impelir a linfa para a frente sem prejudicar o fluxo. A pressão necessária começa em cerca de 4,39 g cm2 no capilar linfático, aumentando para 35,15 – 52,75 g cm2  nos vasos e ductos linfáticos (Cassar pg 43 e 44).

Segundo Leduc (pg. 15): constata-se que a pressão aplicada para se efetuar uma drenagem linfática manual não pode ultrapassar 30 a 40 torr (mmHg), porque a  pressão exterior ao vaso ultrapassa o valor da pressão hidrostática que o mantém aberto.

De acordo com Cassar (pg 43): um impacto mecânico e direto da massagem sobre a pele e sobre o tecido subcutâneo diz respeito a empurrar a linfa dos espaços intersticiais para os vasos de coleta. As células que formam a parede dos vasos coletores têm o objetivo de separar e permitir a movimentação do fluido para o vaso. Os filamentos de ancoragem conectam as células do endotélio dos vasos para o tecido conjuntivo adjacente. Quando se acumulam nos espaços intersticiais, o fluido causa o alongamento imediato do tecido conjuntivo. O alongamento faz com que os filamentos de ancoragem tornem-se tensos, exercendo uma pressão para frente sobre as células endoteliais. Como resultado, as células se separam e as junções entre elas se abrem. Pesquisas indicam que a massagem cria pressão suficiente para empurrar mecanicamente a linfa pelas lacunas entre as células do endotélio dos vasos coletores.

Segundo Godoy (pg. 35,36): Na drenagem linfática manual as manobras são suaves e superficiais, não necessitando comprimir os músculos, e sim mobilizar uma corrente de liquido que está dentro de um vaso linfático em nível superficial e acima da aponeurose. Com relação à pressão da mão sobre o corpo é universalmente reconhecida que essa deve ser leve para não produzir o colapso linfático. O valor sugerido gira em torno de 30 a 40 mmHg (grifos nossos).

Segundo Winter (pg. 94, 96): A eficiência da drenagem linfática manual depende da exatidão das manobras. A compressão externa aumenta a pressão da substancia fundamental. Uma pressão muito forte pode obstruir os capilares chegando até mesmo a danificá-los.

Ora, esta característica fundamental da drenagem linfática, tão valorizada pelos seus estudiosos e defensores, também é ignorada e desrespeitada na drenagem turbinada. 

3) Ação do aumento metabólico na drenagem linfática. Outra preocupação na Drenagem linfática diz respeito a evitar o aumento da temperatura da pele.

Segundo Evelyne Selosse (pg 117), não se pode combinar drenagem linfática com qualquer técnica de calor: fangoterapia, infravermelho, exercícios musculares intensos, sauna.

Segundo Ribeiro (pg 25): o fluxo sanguíneo e linfático da pele variam de acordo com a temperatura. Acima dos 37º C pode ocorrer a elevação do fluxo, o aumento da pressão capilar, a dilatação das arteríolas, com aumento da filtração, e a estase linfática, com formação de edema ocasional, nas épocas de calor.

Não precisamos nos delongar nesse tópico: sabemos que o aquecimento não aumenta a circulação da linfa. Ninguém aquece os pés ou nenhuma região edemática (inchada) para reduzir os edemas! Até sabemos das queixas de edemas em dias mais quentes. Só a Drenagem Turbinada aquece para drenar!

Quanto à fundamentação da drenagem turbinada

 Esta técnica se propõe a ativar as atividades renais, promover o relaxamento muscular e o aumento metabólico. E alcança estes objetivos. Mas isto não quer dizer que aumentou a drenagem linfática. Pelo contrário, calor pode aumentar o edema, assim como os hematomas deixados por alguns terapeutas.

A técnica se propõe a melhorar a qualidade do sangue. Apesar de a drenagem linfática descarregar toxinas na circulação venosa, o aumento metabólico promove melhoria nas funções medulares, esplênicas, hepáticas, renais e hormonais, realmente melhorando tal qualidade. Isto ela também consegue. Mas, repetimos, isto não garante aumento da drenagem da linfa.

Conclusão

A drenagem turbinada consegue vários resultados positivos, todos em comum com a massoterapia estética, mas sem garantias de que aumente a circulação linfática.

Só podemos concluir que o nome Drenagem Turbinada é impróprio. Ao utilizá-lo, estamos propondo algo que não podemos garantir: estimulação da drenagem da linfa.

A confusão se dá porque a finalidade da técnica é lipomodeladora ou estética, e isto ela alcança. Mas o uso desse nome remonta ignorância de Fisiologia, da literatura da área ou má fé. Algo que, acredito, aparenta propaganda enganosa.

Dessa forma o leitor pode compreender porque, apesar dos inúmeros pedidos, continuamos sem oferecer tal técnica no IBTED.

 

Textos complementares: Drenagem Linfática Atualizada e Lendas da Estética.

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Bibliografia

BORGES, Fábio dos Santos. Modalidades terapêuticas nas disfunções estéticas. Phorte Editora: São Paulo, 2006.

CASSAR, Mario-Paul. Manual de massagem terapêutica. 1 ed. MANOLE: Barueri-SP, 2001.

GODOY, José Maria de & GODOY, Maria de Fátima Guerreiro. Drenagem linfática manual- Uma nova abordagem. GRÁFICA RIO COR: São José do Rio Preto-SP, 1999.

GUYTON, A.C. MD; HALL, John E. PHD. Fisiologia Humana e Mecanismo das Doenças. Guanabara koogan: Rio de Janeiro, 6º ed. 1997.

LEDUC, Albert & Leduc, Olivier. Drenagem linfática. 3 ed. São Paulo: MANOLE, 2007.

RIBEIRO, Denise Rodrigues. Drenagem linfática manual corporal. 6. ed. SENAC: São Paulo-SP, 2004.

SELOSSE,Evelyn. Método original del doctor Vooder. Editorial IBIS: Barcelona, 1995.

WINTER, Waldtraud Ritter. Drenagem linfática manual. 4. ed. VIDA ESTÉTICA: Rio de Janeiro, 1986.


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[1] Tanto o frio quanto o calor promovem aumento do metabolismo: o calor aumenta a atividade celular e o frio promove aumento na queima de energia para manter a temperatura do corpo. Como o calor provoca relaxamento muscular e isto pode promover perda de tônus muscular enquanto que o frio promove trabalho muscular, normalmente o resfriamento é mais bem visto nas terapias estéticas.